Curte espiritualidade, natureza e busca um lugar no Japão não muito explorado por turistas? Fica por aqui que essa dica é para você.
Fundado em 1244, o Eiheiji é um mosteiro zen budista que fica em Fukui, uma província que, injustamente, quase não recebe muito destaque quando falamos de turismo no Japão.
No último inverno, no final de fevereiro, tirei uns dias para conhecer o mosteiro e alguns pontos muito interessantes nos arredores da capital da província (spoilers aqui). Também chamada de Fukui, a capital é facilmente acessada por trem-bala em cerca de 3 horas saindo de Tóquio pela mesma linha que passa pela charmosa Kanazawa.
Durante os meses mais frios, a região do Eiheiji ganha um charme especial com a neve acumulada, mas, independente das paisagens branquinhas, é muito interessante conhecer o lugar.

Completamente encantada por essa paisagem!
Treinamento monástico
O Eiheiji, que significa Templo da Paz Eterna, é uma grande referência para praticantes do zen. A prova disso é que, ano a ano, monges do Japão todo e também de outros países se submetem ao treinamento do mosteiro, que dizem ser bem rigoroso. A austeridade dita o dia a dia dos monges, que se dedicam a limpar o vasto complexo, entoar sutras, praticar o zazen – a meditação sentada–, e fazer refeições simples.
O conforto é reduzido ao mínimo. Só para se ter uma ideia, nos dias das minhas visitas (sim, foram mais de uma), as temperaturas beiravam zero grau ou menos – isso tanto do lado de fora quanto dentro! Muitos corredores que conectam os edifícios do complexo são completamente abertos e desprotegidos do vento. Pensando pelo lado positivo, cada passada pelos corredores era uma oportunidade de apreciar a neve que se acumulava majestosamente na área externa.

Pelos corredores que conectam os mais de 70 edifícios do complexo
Visita ao mosteiro
Diferentemente de outros mosteiros, o Eiheiji está aberto a visitação e não exige reservas. Um passeio pelo complexo é altamente recomendado para quem estiver na região, tanto para apreciar sua arquitetura quanto para entender mais sobre a vida monástica. No início da rota, vale a pena assistir ao vídeo introdutório, que oferece uma visão sobre o cotidiano dos monges. Depois, é possível explorar as diversas salas e pavilhões abertos ao público.

Um dos edifícios que fazem parte do complexo do Eiheiji
Experiência de meditação sentada – zazen
Para aqueles que buscam uma experiência mais aprofundada, que tal uma sessão de zazen? As sessões acontecem diariamente, às 15h30, e são guiadas por monges. A reserva pode ser feita pouco antes da sessão e, caso haja disponibilidade, um monge que fala inglês faz o acompanhamento de visitantes estrangeiros que não falam japonês.
Nesta experiência de meditação, somos conduzidos a uma sala apropriada e cada etapa é explicada pelo monge. Apesar das várias instruções em relação ao jeito que sentamos, nos posicionamos de frente à parede e apoiamos as mãos, o objetivo neste primeiro momento é simples: focar apenas na respiração e na postura, sem distrações, devaneios, ou aquela vontade de desbloquear a tela do celular. Olha… fácil não é!
Cerimônia com monges budistas
Outra experiência oferecida aos visitantes é assistir ao serviço matinal em que os monges se reúnem para entoar sutras e fazer orações. É preciso madrugar porque a atividade começa às 4h30 da manhã, com uma explanação de um dos monges sobre a história do Eiheiji e de seu fundador, o monge Dogen. Depois, somos conduzidos a um grande hall, onde a cerimônia começa às 5h30. O serviço dura uns 40, 45 minutos e é seguido por um tour guiado pelas dependências do templo.

Um dos salões principais do mosteiro, onde assistimos à cerimônia matinal
E valeu a pena madrugar?
Mesmo com casaco de neve, malha de lã, blusa térmica, gorro e luvas, o frio subia pela espinha começando pela sola do pé. A meia heattech, da Uniqlo, não dava conta. Durante a reserva, eles bem que tinham aconselhado a usar dois pares de meias, mas, recém-saída das cobertas, às 3h40 da madrugada para poder sair do hotel às 4h05, meu cérebro não se agarrou a essa informação. Pelo menos, assistimos à cerimônia do conforto de banquinhos, no fundo do salão. Se tivesse que sentar direto no chão, me conheço, logo começaria um show de espirros que se confundiria com a percussão ritmada da entoação de sutras.

Saída de madrugada para chegarmos no templo em tempo da cerimônia matinal
Parecia que aqueles monges e eu não compartihávamos o mesmo ambiente. Sentados no chão, de cabeça raspada, com uma vestimenta fina e, para a minha descrença, alguns sem meia, mantinham a postura, como se fossem imunes ao frio, enquanto recitavam suas orações.
Mas o que chamou atenção, e que vai ficar para sempre na memória, vai ser aquela batida da percussão, que – quase ouso falar (ousei) – poderia muito bem ser sampleada e colocada num show de música eletrônica. Fiquei impressionada também com a estética dos movimentos: a forma elegante como seguravam e distribuíam as sutras, ao mesmo tempo em que suas vestimentas fluíam ritmadas, além do jeito como sentavam, ocupavam e desocupavam aquele imenso salão, numa coreografia de movimentos precisos, pensados e presentes. Hipnotizante.

A área do Eiheiji é rodeada por montanhas e o passeio pelo vilarejo pode ser feito inteiramente a pé
Informações gerais
Como chegar no Templo Eiheiji
- Saindo de Tóquio, pegar o shinkansen até a estação de Fukui (cerca de 3h, ~¥15,000). Da própria estação, partem ônibus até o templo Eiheiji (¥750, 30 minutos, pagamento na hora, aceita dinheiro ou IC Card).
Ingressos
- ¥700/adulto e ¥300/criança
Reserva de experiências
– A sessão de zazen, meditação sentada, acontece diariamente, às 15h30. É possível reservar no próprio dia, direto no templo. Valor: ¥500
– Para a cerimônia matinal, a reserva deve ser feita por telefone, até a véspera. Valor: ¥1000
– Como alternativa, se hospedando no Hakujukan, o pessoal do hotel se encarrega das reservas e o valor das experiências já está incluso na diária.
– Quando a reserva é feita com uma certa antecedência, monges que falam inglês podem auxiliar os participantes estrangeiros.