“Pode me recomendar alguns livros japoneses?”. Logo que vi essa pergunta pipocando na caixinha do #PeachResponde, que abro semanalmente lá no Instagram (@peachnojapao), sabia que um vídeo de 15 segundos de story não daria conta. Gosto muito de ler – apesar de estar lendo pouco ultimamente – e, desde que vim para o Japão pela primeira vez, em 2013, venho focando minhas leituras em autores ou assunto japoneses.
Acabei fazendo um vídeo e, para quem quiser saber mais (ou tiver preguiça de dar play no vídeo – entendo, sou dessas), a lista vai em seguida. Ah, aqui no post tem um bônus: a dica de um 5° livro!
1. Querida Konbini, de Sayaka Murata (2016)
Dificilmente perco a chance de indicar esse livro. Com uma linguagem ácida, a escritora Sayaka Murata evoca questionamentos pertinentes a todas as sociedades, independente do país: o que é ser normal? O que fazer para conseguir me encaixar? Descrevendo situações que beiram o absurdo, Keiko, a personagem principal que trabalha há quase duas décadas numa konbini (loja de conveniência), faz a gente pensar além do universo desse ambiente precioso do cotidiano japonês, descrito de maneira impecável. A autora baseou-se na sua própria experiência para criar a história do livro, pelo qual recebeu o Prêmio Akutagawa, um dos mais célebres do Japão.
Gosto muito da participação da tradutora Rita Khol, que fez a tradução da obra para português, nesse podcast da Japan House São Paulo. Rita fala dos desafios do trabalho e do motivo pelo qual insistiu para que o título não focasse numa presença feminina, assim como ficou o nome em inglês: Convenience Store Woman. Segundo Rita, o título original コンビニ人間 [Konbini ningen] não implica numa questão de gênero (“mulher da konbini”) e se apoia mais na ideia de “pessoa-konbini”.
2. Gen – Pés Descalços, de Keiji Nakazawa (1973-1974)
Pode soar estranho para alguém que fale tanto de Japão, mas esta é a única série de mangá que eu li na vida. Inspirado na experiência do autor e em fatos que ele presenciou no lançamento da bomba atômica em Hiroshima, Gen é um porrada fortíssima no estômago. Keiji Nakazawa tinha apenas 7 anos na ocasião. Sob este olhar infantil, a leitura provoca incredulidade, repulsa e choque. Eu certamente não sabia o que tinha sido a bomba atômica até ler esse livro.
3. Introdução à Cultura Japonesa – Ensaio de Antropologia Recíproca, de Hisayasu Nakagawa (2008)
Estava na livraria Martins Fontes, em São Paulo, procurando um livro didático de francês quando esse livrinho vermelho me chamou atenção na prateleira. Só o fato de ter sido escrito por um antropólogo japonês já teria me seduzido, mas quando vi que o autor tinha tido uma boa vivência na França, onde morei por um tempo, me vi praticamente obrigada a comprar essa compilação de ensaios. Hisayasu Nakagawa consegue estabelecer uma comparação muito clara entre o pensamento ocidental e o pensamento japonês – e isso é fascinante. Meu texto preferido se chama “Traduzir a Identidade”, em que ele expõe os desafios da tradução de obras do japonês para outras línguas e vice-versa – tanto é que ele escreveu esses ensaios em francês.

4. O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação, de Haruki Murakami (2013)
Talvez seja uma escolha controversa, pois esse livro foge do Murakami “clássico”, com seus enredos fantásticos e narrativas surrealistas. A história é mais pé-no-chão e me agradou bastante por trazer um questionamento muito interessante: a ideia que temos de nós mesmos pode não condizer com o que os outros pensam da gente. Somos introduzidos à história pelo viés do narrador, o tal do incolor Tsukuru Tazaki, e pouco a pouco vamos percebendo que a história tem vários lados.
5. Um Artista do Mundo Flutuante, de Kazuo Ishiguro (1986)
Kazuo Ishiguro é um escritor nipo-britânico, que foi premiado com o Nobel de Literatura em 2017. Uma de suas obras mais conhecidas é “Vestígios do Dia”, que foi adaptada para o cinema e teve Anthony Hopkins no papel principal. Um Artista do Mundo Flutuante revisita o período do pós-guerra no Japão a partir de um ponto de vista muito particular: o de um artista que contribuiu para a promoção da ascensão do nacionalismo no país antes da Segunda Guerra Mundial. A leitura pode ser considerada mais “parada” comparada às obras de Murakami, por exemplo, mas sua narrativa é interessantíssima por ser conduzida por um narrador não-confiável, aquele que pouco a pouco vai deixando o leitor com um pé atrás de tudo o que é contado. Gostei bastante também por trazer um período delicado da história do Japão como pano de fundo das memórias do artista.
