Tag: xintoísmo

Por que os japoneses amarram cordas em árvores antigas?

Por causa de um projeto (diga-se de passagem, incrível) que surgiu, passei a pesquisar mais sobre o xintoísmo, que, junto com o budismo, formam a base da espiritualidade dos japoneses. Assim, comecei a entender o significado de muita coisa que, antes, confesso que passava batido.

Em santuários xintoístas (aprendi com o Roberto Maxwell que a terminologia correta é: “santuário” quando falamos de xintoísmo e “templo” se o recinto for budista), estão presentes diversos elementos com simbologias muito interessantes. Um deles é o shimenawa, corda feita de palha que, a princípio, parece ter efeitos meramente decorativos.

Foto: Spinster Cardigan/Creative Commons

O shimenawa, na verdade, é usado para purificar, atrair divindades e demarcar territórios sagrados. Quando está amarrado no tronco de uma árvore, indica que se trata de uma árvore sagrada, pois nela habita um kodama.

Essa árvore do Monte Kurama, em Kyoto, era tão grande e imponente, que mal cabia no enquadramento

Kodama, na crença xintoísta, é o espírito que protege as florestas, atuando como um guardião da natureza. Ele habita em árvores antigas e imponentes, e costuma vaguear livremente pelas montanhas. Derrubar uma árvore que abriga esse espírito seria uma agressão grave à natureza e, nesse caso, toda a aldeia estaria sujeita à maldição do kodama.

Sua forma física é incerta, mas uma de suas representações mais famosas são essas criaturinhas fofas e um pouco assustadoras que aparecem na animação Princesa Mononoke, do Studio Ghibli:

Agora você já sabe: se avistar uma árvore demarcada com o shimenawa, pode ter certeza de que se trata de uma região protegida pelo kodama. 😉

Se curtiu esse assunto, confere também este post em que falo sobre a produção de saquê e a relação dos japoneses com a natureza.

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Saquê e a conexão com os deuses

Foi num izakaya muito especial que entendi melhor a relação dos japoneses com a bebida. Nagaimoya, um bar lindo e acolhedor que fica em Aoyama, Tóquio, é uma empreitada do Kinya Murakami, um amigo super querido que me foi apresentado pelo Mizuaki, aquele que me levou no aniversário do Nobuyoshi Araki.

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Ambiente pequeno, estrutura em madeira, luzes baixas e um jazz rolando de fundo

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Kinya tirou um tempinho pra sentar com a gente e nos oferecer um super banquete

Nagaimo, que dá nome ao izakaya, é um tipo de inhame e é o ingrediente principal desse prato delicioso

Nagaimo, que dá nome ao izakaya, é um tipo de inhame e é o ingrediente principal desse prato delicioso

Sashimi dos peixes do dia: mais frescor, impossível!

Sashimi dos peixes do dia: mais frescor, impossível!

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Na companhia da Amanda, minha bff suíça, Mizuaki e Kinya

Fomos convidados a provar várias delícias do cardápio, como se fôssemos convidados de honra. Foram tantas regalias que brindamos com um saquê mais do que especial. O rótulo Jikon é produzido por um fabricante da província de Mie, chamado Kiyashou. O estabelecimento funciona desde 1818 (ainda durante o período Edo!) e é considerado pelo governo uma propriedade cultural tangível, visto seu enorme valor histórico.

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Para ter o Kiyashou na sua lista de fornecedores, não basta dar uma ligadinha lá e fazer uma encomenda. O Kinya contou pra gente que o acesso ao fabricante é bem restrito e que ele teve que ir pessoalmente se apresentar, antes de fechar negócio.

Dá pra ter uma ideia melhor do trabalho de um fabricante de saquê com esse vídeo do Great Big Story, que mostra a produção da família Sudo, na ativa há mais de 850 anos. (valeu pela indicação, Kura!)

No final, o recado é claro: eles não querem simplesmente vender saquê. Eles querem transmitir valores da cultura japonesa.

Produzir saquê envolve muito mais do que achar o arroz certo e acertar no processo de fermentação. A região onde o fabricante estiver instalado vai dizer muito sobre o produto final. No caso da família Sudo, a presença de árvores antigas garante um água límpida e cristalina. Para o fabricante de Mie, o vale fértil e apropriado para o cultivo de arroz, o clima adequado e o abastecimento abundante do rio Nabari são as chaves para um cenário ideal.

Vendo o discurso de Sudo-san, a gente percebe seu respeito e gratidão pelas árvores quase milenares. E não é exagero dizer que o relacionamento dos japoneses com a natureza é praticamente religioso. De acordo com o xintoísmo, que rege muitas tradições do país, todos os seres, sejam animados ou inanimados, possuem um espírito. Isso inclui, portanto, os rios, as árvores, as montanhas, as plantas – ou seja, todos os elementos que estão presentes na produção da bebida, mesmo que indiretamente.

A relação entre saquê e a religião não para por aí. A bebida é usada em rituais de purificação e oferecida em festivais xintoístas, além de estar simbolicamente presente nos barris decorativos que ficam nas entradas de alguns santuários, como o Meiji Jingu, em Tóquio.

Barris de saquê no santuário Meiji Jingu, em Tóquio / Foto: Stefan Laketa

Barris de saquê no santuário Meiji Jingu, em Tóquio / Foto: Stefan Laketa

Segundo lendas, o saquê foi descoberto por acaso, com a fermentação acidental do arroz. Teria sido uma intervenção divina, acreditam os japoneses. E, desde então, dizem que a “bebida dos deuses” conecta pessoas com divindades.

Pra quem ficou curioso em conhecer o Nagaimoya e trocar uma ideia com o Kinya (ele fala português fluentemente!):

Nagaimoya (izakaya)

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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