Tag: wabisabi

Youji no Shiro: jardins de infância como você nunca viu antes

Feche os olhos e imagine uma escolinha infantil. Quais são as coisas que vêm à cabeça em primeiro lugar? Paredes coloridas, objetos de plástico, móveis com acabamento arredondado – ok, talvez você não tenha tido tempo para pensar no detalhe do acabamento dos móveis, mas tenho certeza que você imaginou algo muito diferente disso:

NFB Nursery, projeto do escritório Youji no Shiro em Nara, Japão (Fotos: Ryuji Inoue/Studio Bauhaus)

Ou disso:

SM Nursery, projeto do escritório Youji no Shiro em Tóquio, Japão (Fotos: Studio Bauhaus)

Os dois são projetos do escritório japonês Youji no Shiro, especializado em arquitetura de espaços para crianças, que eu descobri por acaso no Instagram. No lugar de cadeirinhas coloridas e personagens infantis nas paredes, linhas retas, ambientes clean, muita madeira, decoração minimalista, conduites expostos, janelões de vidro, entrada de luz natural e grandes áreas verdes – em outras palavras, minha casa dos sonhos.

Por trás desses conceitos “adultos” aplicados em ambientes infantis, os arquitetos do escritório defendem pontos de vista bastante interessantes – e, talvez, polêmicos. Eles são contra, por exemplo, pensar excessivamente na segurança das crianças pois acham que é com tombos e machucadinhos que elas vão aprender a ser mais cautelosas e a lidar com os obstáculos do mundo externo. Além disso, defendem que nenhum outro lugar fora da escolinha será à prova de riscos e que o excesso de zelo pode prejudicar o desenvolvimento dos pequenos.

OB Kindergarten and Nursery, Nagasaki (Foto: Studio Bauhaus)

Outra demanda comum entre seus clientes é o uso de materiais duráveis e fáceis de limpar. Mais uma vez, eles se opõem. Seria muito prático trabalhar com móveis de plástico ou papéis de parede em vinil, mas, na opinião dos profissionais, isso teria mais benefícios para os adultos encarregados da manutenção do espaço do que para o público-alvo. A ideia deles é evitar o uso de sintéticos e estimular o contato das crianças com materiais naturais como madeira e ferro, que exalam cheiros característicos e proporcionam sensações diferentes ao toque.

Os banheiros, lugares que muitas vezes não recebem tanta atenção na concepção de projetos, ganham bastante importância nos desenhos do Youji no Shiro. Os janelões de vidro, que num primeiro momento podem afugentar os mais tímidos, mostram a preocupação em permitir a entrada de luz natural para que os banheiros sejam ambientes divertidos, arejados e bem iluminados (o que combateria o mal-cheiro e a proliferação de bactérias).

Banheiros do NFB Nursery e ST Nursery, do escritório Youji no Shiro (Fotos: Studio Bauhaus)

Conscientes das mudanças da sociedade japonesa e do declínio da taxa de natalidade infantil, outra preocupação do escritório é de realizar projetos que possam ser reaproveitados para outros fins no futuro. E, sobre a monotonia dos espaços brancos, beges e cinzas, os arquitetos explicam que os ambientes se tornam naturalmente coloridos com a presença das crianças. Seja pelas suas roupas, ou pela energia que espalham, são elas que trazem cores para os espaços.

Hanazono Kindergarten and Nursery, Okinawa (Fotos: Studio Bauhaus)

Todas essas questões fazem a gente pensar sobre a relação da arquitetura com o desenvolvimento de uma criança. E, para mim, o ponto mais interessante da mentalidade do escritório está na questão de trabalhar, em certas ocasiões, com madeira sem tratamento. Segundo eles, “as crianças devem saber que a madeira envelhece”.

Impermanência, imperfeições que surgem com a passagem do tempo e apreciação de sua beleza são alguns dos pilares da filosofia japonesa wabisabi (sobre a qual escrevi este post), um dos conceitos mais bonitos que o Japão me ensinou e que, pelo visto, é ensinado desde cedo aos pequenos.

(mais fotos de projetos aqui)

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
Compartilhe:

Wabisabi: a beleza em cacos, rugas e cicatrizes

Ideias por trás da filosofia japonesa que promove a beleza das coisas impermanentes, incompletas e imperfeitas

Quem viu o vídeo sobre arquitetura se deparou com o termo wabisabi quando falo da catedral projetada por Kenzo Tange e de suas paredes sem acabamento. Neste post, quero explicar melhor este conceito que, para muitos japoneses, é dificílimo de ser explicado. Lá vou eu, humildemente, tentar dar conta do recado.

Wabisabi é uma filosofia que vai contra os ideais de beleza ocidentais. Seu conceito surgiu por volta do século XV, com bases no Zen, como resposta à estética predominante na época, de muito luxo, ornamentos e ostentação.

Não se trata de valorizar aquela beleza milimétrica, simétrica, perfeita e eterna. É valorizar a beleza que se transforma e aceitar o ciclo natural da vida. É ver beleza em algo que também pode causar estranhamento. É apreciar as imperfeições que surgem com a passagem do tempo. Afinal, nada é permanente, tudo muda o tempo todo.

Na cultura japonesa, podemos ver a aplicação deste conceito em diversas tradições, como no kintsugi, técnica de restauração de cerâmicas quebradas. Diante de um vaso partido em pedaços, a maioria de nós, ocidentais, juntaria os cacos, embrulharia no jornal e jogaria fora. Mas os japoneses têm um jeito de colar os fragmentos com uma mistura de resina ou verniz com pó de ouro. O resultado é APENAS maravilhoso.

faena_aleph_kintsugi1

Fotos: Faena Aleph (www.faena.com)

Fotos: Faena Aleph (www.faena.com)

A mensagem dessa arte é de ressaltar as cicatrizes, pois são elas que contam histórias. Vemos, assim, a beleza nas imperfeições de coisas que não são eternas, que são frágeis e se quebram, podendo se tornar incompletas. Os acidentes e infortúnios fazem parte do ciclo da vida e não deveríamos tentar escondê-los.

O bonsai também transmite essa mensagem. Numa ida ao museu dedicado às árvores em miniatura, em Saitama, pertinho de Tóquio, percebi que o wabisabi está nos galhos retorcidos, na assimetria e na imperfeição dos troncos. Tempo é um fator essencial no cultivo de um bonsai. Conhecedores da técnica dizem que é necessário anos, podendo chegar a uma década, para que o bonsai atinja um certo nível de expressividade.

Peach_no_japao_bonsai_wabisabi

Mas o que mais me chamou atenção foi a explicação para a parte branca do tronco. Essa parte está morta, por isso perde a coloração. Nem por isso os bonsais deixam de ter sua beleza apreciada, pelo contrário. O branco contrasta com as outras partes vivas e remete também à ideia de impermanência.

Saindo das tradições, o wabisabi também pode estar no nosso dia-a-dia. É apreciar a ferrugem que aparece naquela cadeira da varanda, ou ver a beleza das pétalas de flores caídas no chão. É gostar ainda mais daquela camiseta que foi perdendo a cor, depois de tantas lavagens – sinal de que você gosta mesmo dela.

Nós mesmos podemos ser alvos de um “olhar wabisabi” – por que não? Numa recente viagem para a França, terra da Avène, La Roche-Posay e outras gigantes dos cosméticos, levei na bolsa uma lista de produtos que minha dermatologista tinha me recomendado. Prestes a completar 31 anos, estava preocupada com umas marquinhas abaixo dos olhos – sim, aquelas que só eu consigo enxergar.

Cheguei lá e comentei com meu namorado que queria achar uma farmácia. Ele me disse:

  • Mas você não precisa disso. Você é linda assim e quando tiver ruguinhas ao redor dos olhos vai ficar mais charmosa ainda.

Resultado: minha nécessaire foi e voltou do mesmo jeito. <3

Artigos interessantes sobre o kintsugi: aqui e aqui

Agradecimento especial à fotógrafa e artista visual Cassiana Der Haroutiounian, minha parceira de aventuras na Tailândia e companheira de discussões infinitas sobre filosofia, viagens e vida. Especialmente para o blog, ela escolheu a imagem que abre o texto e ilustra tão bem o wabisabi na arte.

 

 

 

 

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
Compartilhe: