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Clima feudal na charmosa Takayama

Quando estava planejando a minha primeira viagem pelo Japão, na companhia da minha irmã e do meu cunhado, meu pai recomendou que visitássemos Takayama, cidade onde nasceu a minha avó (que não cheguei a conhecer). E foi assim, por causa dos vínculos familiares, que descobri essa cidade incrível, cheia de história, tradição e charme.

Como seu próprio nome indica (taka 高: alto, yama 山: montanha), Takayama fica numa região montanhosa no norte da província de Gifu, a 300km de Tóquio. Por causa da altitude e do relativo isolamento geográfico, a cidade desenvolveu artes e tradições próprias durante o xogunato Tokugawa, entre os séculos XVII e XIX. Entre eles, estão o trabalho com carpintaria e produção de saquê, que vemos presentes até hoje. Passeando por suas ruas encantadoras e vendo as construções em madeira típicas do período Edo, fazemos uma volta ao Japão feudal.

Foto: Eugene O. / Creative Commons

Passeio de jinrikisha (Foto: Piti Koshimura)

Para se diferenciar de cidades de mesmo nome, é também chamada de Hida-Takayama. E é de lá que vem o Hida beef, carne nobre que rivaliza com o famoso Kobe beef.

Bibimbap de hida beef: prato de origem coreana, em que carne e vegetais são cozidos na hora numa tigela feita de pedra vulcânica (Foto: Victor Hugo L. Cardoso de Sá :))

No quesito gastronômico, Takayama torna-se ainda mais especial por causa das diversas ofertas de saquês produzidos na região. O clima mais ameno e as águas cristalinas que correm pelas montanhas compõem o cenário ideal para a fabricação da bebida.

Muitos fabricantes estão localizados na rua Sanmachi, a mais conhecida da cidade. É muito fácil avistá-los de longe: suas fachadas são sinalizadas com barris de saquê, chamados de sakadaru, ou com os sugidama, bolas feitas de galhos de cedro. Se o sugidama for verde, é sinal de que o saquê acabou de ser filtrado e que precisa descansar por alguns meses antes de ser consumido.

Sugidama verde: “volte daqui a uns meses!” (Foto: Brian Jeffery Beggerly / Creative Commons)

Se a bola de galhos estiver marrom – ebaaa! – significa que é o momento ideal de entrar e apreciar uma(s) dose(s).

Sugidama marrom: timing perfeito 😉 (Foto: Jam_232 / Creative Commons)

Alguns produtores abrem suas portas para degustações gratuitas ou cobradas apenas com uma taxa simbólica (consulte a relação aqui).

Outros atrativos de Takayama são os onsen (águas termais), e os templos. O clima da cidade é tão incrível que, com todas essas referências de costumes de tradições japoneses, ela é conhecida carinhosamente como Pequena Kyoto <3.

Santuário Sakurayama Hachimangu

Mais um cantinho charmoso da cidade (Foto: Harald Johnsen / Creative Commons)

Nakabashi: ponte sobre o rio Miyakawa

Por ser realmente pequena, é possível explorá-la a pé ou de bicicleta, em um ou dois dias. Ou, para aqueles que quiserem desfrutar de tudo com mais tranquilidade, a combinação onsen + comida gostosa + saquês deliciosos + natureza exuberante + serenidade dos templos é realmente bastante convidativa para uma esticada na estadia 😉

Como chegar: saindo de Tóquio, tem a opção de ir de ônibus (5h30) ou de trem, baldeando em Nagoya (4h30). Todos os detalhes estão aqui.

Outras cidades interessantes nas proximidades: Kamikochi (AMO esse vilarejo, um dos lugares mais lindos que visitei no Japão), Shirakawa-go, Magome e Tsumago (onde conheci o simpático Suzuki-san)

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Saquê e a conexão com os deuses

Foi num izakaya muito especial que entendi melhor a relação dos japoneses com a bebida. Nagaimoya, um bar lindo e acolhedor que fica em Aoyama, Tóquio, é uma empreitada do Kinya Murakami, um amigo super querido que me foi apresentado pelo Mizuaki, aquele que me levou no aniversário do Nobuyoshi Araki.

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Ambiente pequeno, estrutura em madeira, luzes baixas e um jazz rolando de fundo

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Kinya tirou um tempinho pra sentar com a gente e nos oferecer um super banquete

Nagaimo, que dá nome ao izakaya, é um tipo de inhame e é o ingrediente principal desse prato delicioso

Nagaimo, que dá nome ao izakaya, é um tipo de inhame e é o ingrediente principal desse prato delicioso

Sashimi dos peixes do dia: mais frescor, impossível!

Sashimi dos peixes do dia: mais frescor, impossível!

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Na companhia da Amanda, minha bff suíça, Mizuaki e Kinya

Fomos convidados a provar várias delícias do cardápio, como se fôssemos convidados de honra. Foram tantas regalias que brindamos com um saquê mais do que especial. O rótulo Jikon é produzido por um fabricante da província de Mie, chamado Kiyashou. O estabelecimento funciona desde 1818 (ainda durante o período Edo!) e é considerado pelo governo uma propriedade cultural tangível, visto seu enorme valor histórico.

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Para ter o Kiyashou na sua lista de fornecedores, não basta dar uma ligadinha lá e fazer uma encomenda. O Kinya contou pra gente que o acesso ao fabricante é bem restrito e que ele teve que ir pessoalmente se apresentar, antes de fechar negócio.

Dá pra ter uma ideia melhor do trabalho de um fabricante de saquê com esse vídeo do Great Big Story, que mostra a produção da família Sudo, na ativa há mais de 850 anos. (valeu pela indicação, Kura!)

No final, o recado é claro: eles não querem simplesmente vender saquê. Eles querem transmitir valores da cultura japonesa.

Produzir saquê envolve muito mais do que achar o arroz certo e acertar no processo de fermentação. A região onde o fabricante estiver instalado vai dizer muito sobre o produto final. No caso da família Sudo, a presença de árvores antigas garante um água límpida e cristalina. Para o fabricante de Mie, o vale fértil e apropriado para o cultivo de arroz, o clima adequado e o abastecimento abundante do rio Nabari são as chaves para um cenário ideal.

Vendo o discurso de Sudo-san, a gente percebe seu respeito e gratidão pelas árvores quase milenares. E não é exagero dizer que o relacionamento dos japoneses com a natureza é praticamente religioso. De acordo com o xintoísmo, que rege muitas tradições do país, todos os seres, sejam animados ou inanimados, possuem um espírito. Isso inclui, portanto, os rios, as árvores, as montanhas, as plantas – ou seja, todos os elementos que estão presentes na produção da bebida, mesmo que indiretamente.

A relação entre saquê e a religião não para por aí. A bebida é usada em rituais de purificação e oferecida em festivais xintoístas, além de estar simbolicamente presente nos barris decorativos que ficam nas entradas de alguns santuários, como o Meiji Jingu, em Tóquio.

Barris de saquê no santuário Meiji Jingu, em Tóquio / Foto: Stefan Laketa

Barris de saquê no santuário Meiji Jingu, em Tóquio / Foto: Stefan Laketa

Segundo lendas, o saquê foi descoberto por acaso, com a fermentação acidental do arroz. Teria sido uma intervenção divina, acreditam os japoneses. E, desde então, dizem que a “bebida dos deuses” conecta pessoas com divindades.

Pra quem ficou curioso em conhecer o Nagaimoya e trocar uma ideia com o Kinya (ele fala português fluentemente!):

Nagaimoya (izakaya)

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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