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Kansai Yamamoto: a força criativa por trás de Ziggy Stardust

Kansai Yamamoto ficou intrigado quando soube que roupas que tinha desenhado para mulheres estavam sendo usadas por um homem no palcos de Nova York. Quem ousava? Ninguém menos que David Bowie. Era o começo da década de 70 e o músico britânico já se engajava com naturalidade na questão da moda e transcendência de gêneros.

Até então, o estilista não tinha ideia quem era o tal perfomer. Bowie tinha conhecido suas criações por intermédio de seu personal stylist, Yasuko Hayashi, que também trabalhava para o designer. Não demorou muito para que uma importante parceria começasse: a pedido de Bowie, Kansai Yamamoto se tornaria uma das cabeças criativas para a concepção visual de seu personagem mais célebre, Ziggy Stardust. Além de desenhar figurinos deslumbrantes, o estilista também foi responsável por outra marca registrada do cantor: foi dele a ideia dos cabelos curtos em tom de vermelho fogo.

A turnê de promoção dos álbuns The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e Aladdin Sane, iniciada em 1972, percorreu 3 continentes e durou 1 ano e meio. Os looks usados por Bowie, entre eles, versões contemporâneas de quimonos, capas e maquiagem inspiradas no teatro kabuki e o hakama que ficou conhecido como “space samurai”, não só ditaram novas referências ao glam rock, como ajudaram a promover a arte e a moda japonesa no circuito mundial.

“Tokyo Pop”: macacão em vinil desenhado por Kansai Yamamoto (Foto: Masayoshi Sukita)

Reparem na sandália inspirada nas “geta”, sandálias em madeira usadas com quimono (Foto: Masayoshi Sukita)

Hakama reinventado para uso exclusivo de Bowie: “the space samurai”

Criador e criatura 🙂 (Foto: Masayoshi Sukita)

Muitos desses looks estão disponíveis para apreciação do público na exposição “David Bowie is”, que acaba este domingo (9) em Tóquio. A capital japonesa é a única cidade na Ásia a receber a mega exibição organizada pelo museu Victoria and Albert, que eu tive a sorte de ver quando estive de passagem por Londres, em 2013. Usando os audio guides desenvolvidos pela Sennheiser, gigante alemã da indústria do som, é possível mergulhar no mundo e na vida de Bowie, na melhor tradução para a expressão “sound and vision” (até parece jabá, mas faço questão de falar pois foi realmente uma experiência incrível!).

Se estiver em Tóquio e for conferir a exposição no Warehouse Terrada Building, recomendo deixar boas horas livres na sua agenda do dia. Mais informações aqui.

 

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Moda japonesa e o kanji adorado pelos artistas

Conheci o músico/artista multimídia/produtor/performer Dudu Tsuda em Tóquio, durante sua residência artística no Tokyo Wonder Site, um centro de arte contemporânea que sempre apoia pesquisas super interessantes.

Dudu estava trabalhando no projeto “Estudo sobre o Silêncio“, que envolve o conceito do kanji 間 (lê-se ma, aida ou kan, mas, pra simplificar, vamos chamá-lo de ma). Em suas aplicações mais amplas, este ideograma representa o intervalo ou espaço entre dois momentos, dois objetos ou dois acontecimentos. Num uso corriqueiro, por exemplo, podemos falar que um filme dura 2時間 (ni ji kan), ou seja, um intervalo de 2 horas. É o intervalo de tempo entre o começo e o fim. No trabalho do Dudu, o kanji é explorado pelo viés do som, do silêncio e do tempo. Seria a reminiscência de som logo antes do silêncio, pra explicar de um jeito bastante simplificado.

Mal sabia que o ma cruzaria meu caminho novamente, desta vez na França. No final do ano passado, numa temporada em Montpellier, pude assistir ao documentário francês “Espaces Intercalaires”, sobre o qual cheguei a comentar neste post sobre arquitetura. Inspirado pelo mesmo kanji, o cineasta Damien Faure foca em projetos arquitetônicos japoneses desenhados para aqueles espaços mínimos que acabam sobrando entre dois prédios. São terrenos com, por exemplo, 2 metros de largura e outros poucos de profundidade, que acabam abrigando uma construção genial, aquelas que os japoneses fazem tão bem. São os espaços entre duas referências concretas, em mais uma aplicação do kanji.

Para chegar onde quero, preciso contar uma terceira e última história. O Antonio, um amigo que faz mestrado em moda, me disse uma vez que existia um conceito japonês que explicava o espaço entre o tecido da roupa e o corpo. E, durante as minhas investigações, não é que descobri que ele também estava falando do 間 – ma?

Com isso na cabeça, durante essa segunda temporada que passei no Japão, pude perceber que isso fazia muito sentido. Esse é o conceito básico da moda no Japão: existe um espaço entre a pele e a roupa. Os tecidos caem de forma mais folgada, sem prender e sem grudar.

Looks da marca japonesa Niko And (instagram: @nikoand_official)

Looks da marca japonesa Niko And (instagram: @nikoand_official)

Eu, fruto dessa genética 100% oriental, não fui agraciada nem com altura nem com muitas curvas. Usar roupas largonas, maxi tee, calças boyfriend, NEM PENSAR. Acho lindo – nas outras. Mas, vendo as japonesas (baixinhas e mignons, como eu) e o jeito que elas se vestem, pude apreciar muito mais esse estilo. Sem exibir a forma do corpo, acho que se tornam mais elegantes.

Deixei de lado também aquela ideia de que se for usar roupa larga – que teoricamente achata o corpo, tem que colocar um saltão. Via mulheres, até mais baixas que eu, com aqueles cardigãs compridões, usando um tênis. E absolutamente estilosas.

Fora a questão do conforto que a roupa soltinha te propõe. Quem aí nunca ficou com aquelas marcas de costura nas pernas depois de tirar uma calça skinny?

Isso me fez parar pra pensar na forma como me visto e em como o ambiente em que estamos acaba criando certas noções e preconceitos. Estes, felizmente, estão sempre na iminência de serem derrubados.

E essa sou eu, de camisa soltinha, shorts soltinho, sem nada me apertando. Ah! E sem salto, pra poder bater perna por Tóquio sem ter que me preocupar com dor nos pés

E essa sou eu, “ajaponesando” meu estilo: de camisa soltinha, shorts folgado, sem nada me apertando. Ah! E sem salto, pra poder bater perna por Tóquio sem ter que me preocupar com dor nos pés

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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