Tag: arte

Arquitetura, design e um museu inteiro dedicado ao Hokusai

Inaugurado há pouco mais de um mês, o Sumida Hokusai Museum vai ser com certeza uma parada obrigatória na minha próxima ida a Tóquio. Além de ver as obras do mestre Katsushika Hokusai, estou super curiosa pra ver pessoalmente o prédio projetado pela Kazuyo Sejima, uma das arquitetas mais conhecidas do Japão.

O novo museu fica no distrito de Sumida, onde Hokusai nasceu e viveu durante a era Edo. O artista é um dos mais célebres representantes do estilo de pintura e xilogravura conhecido como ukiyo-e (浮世絵), que pode ser traduzido como “retratos do mundo flutuante”. Quem é que não conhece “A Grande Onda de Kanagawa”?

Kazuyo Sejima, um das fundadoras do escritório SANAA e ganhadora do prêmio Pritzker em 2010, criou essa mega-estrutura recoberta de painéis de alumínio, que permite a entrada de luz natural por meio de grandes recortes.

A criação da marca não fica pra trás no quesito design. A proposta de Kiyoji Takase venceu o concurso realizado para selecionar o logo do museu, que, no total, recebeu mais de 1600 sugestões. Sua grande sacada foi pegar o detalhe da trovoada de uma das 36 vistas do Monte Fuji, criadas pelo próprio Hokusai. Olha só que bacana:

Fotos: divulgação Sumida Hokusai Museum e Spoon&Tamago (mais fotos aqui)

Pra quem for visitar o museu – e quiser me contar como foi! – ele fica pertinho da estação Ryōgoku, a alguns minutos do Kokugikan, o famoso ginásio de sumô de Tóquio.

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Wabisabi: a beleza em cacos, rugas e cicatrizes

Ideias por trás da filosofia japonesa que promove a beleza das coisas impermanentes, incompletas e imperfeitas

Quem viu o vídeo sobre arquitetura se deparou com o termo wabisabi quando falo da catedral projetada por Kenzo Tange e de suas paredes sem acabamento. Neste post, quero explicar melhor este conceito que, para muitos japoneses, é dificílimo de ser explicado. Lá vou eu, humildemente, tentar dar conta do recado.

Wabisabi é uma filosofia que vai contra os ideais de beleza ocidentais. Seu conceito surgiu por volta do século XV, com bases no Zen, como resposta à estética predominante na época, de muito luxo, ornamentos e ostentação.

Não se trata de valorizar aquela beleza milimétrica, simétrica, perfeita e eterna. É valorizar a beleza que se transforma e aceitar o ciclo natural da vida. É ver beleza em algo que também pode causar estranhamento. É apreciar as imperfeições que surgem com a passagem do tempo. Afinal, nada é permanente, tudo muda o tempo todo.

Na cultura japonesa, podemos ver a aplicação deste conceito em diversas tradições, como no kintsugi, técnica de restauração de cerâmicas quebradas. Diante de um vaso partido em pedaços, a maioria de nós, ocidentais, juntaria os cacos, embrulharia no jornal e jogaria fora. Mas os japoneses têm um jeito de colar os fragmentos com uma mistura de resina ou verniz com pó de ouro. O resultado é APENAS maravilhoso.

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Fotos: Faena Aleph (www.faena.com)

Fotos: Faena Aleph (www.faena.com)

A mensagem dessa arte é de ressaltar as cicatrizes, pois são elas que contam histórias. Vemos, assim, a beleza nas imperfeições de coisas que não são eternas, que são frágeis e se quebram, podendo se tornar incompletas. Os acidentes e infortúnios fazem parte do ciclo da vida e não deveríamos tentar escondê-los.

O bonsai também transmite essa mensagem. Numa ida ao museu dedicado às árvores em miniatura, em Saitama, pertinho de Tóquio, percebi que o wabisabi está nos galhos retorcidos, na assimetria e na imperfeição dos troncos. Tempo é um fator essencial no cultivo de um bonsai. Conhecedores da técnica dizem que é necessário anos, podendo chegar a uma década, para que o bonsai atinja um certo nível de expressividade.

Peach_no_japao_bonsai_wabisabi

Mas o que mais me chamou atenção foi a explicação para a parte branca do tronco. Essa parte está morta, por isso perde a coloração. Nem por isso os bonsais deixam de ter sua beleza apreciada, pelo contrário. O branco contrasta com as outras partes vivas e remete também à ideia de impermanência.

Saindo das tradições, o wabisabi também pode estar no nosso dia-a-dia. É apreciar a ferrugem que aparece naquela cadeira da varanda, ou ver a beleza das pétalas de flores caídas no chão. É gostar ainda mais daquela camiseta que foi perdendo a cor, depois de tantas lavagens – sinal de que você gosta mesmo dela.

Nós mesmos podemos ser alvos de um “olhar wabisabi” – por que não? Numa recente viagem para a França, terra da Avène, La Roche-Posay e outras gigantes dos cosméticos, levei na bolsa uma lista de produtos que minha dermatologista tinha me recomendado. Prestes a completar 31 anos, estava preocupada com umas marquinhas abaixo dos olhos – sim, aquelas que só eu consigo enxergar.

Cheguei lá e comentei com meu namorado que queria achar uma farmácia. Ele me disse:

  • Mas você não precisa disso. Você é linda assim e quando tiver ruguinhas ao redor dos olhos vai ficar mais charmosa ainda.

Resultado: minha nécessaire foi e voltou do mesmo jeito. <3

Artigos interessantes sobre o kintsugi: aqui e aqui

Agradecimento especial à fotógrafa e artista visual Cassiana Der Haroutiounian, minha parceira de aventuras na Tailândia e companheira de discussões infinitas sobre filosofia, viagens e vida. Especialmente para o blog, ela escolheu a imagem que abre o texto e ilustra tão bem o wabisabi na arte.

 

 

 

 

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Moda japonesa e o kanji adorado pelos artistas

Conheci o músico/artista multimídia/produtor/performer Dudu Tsuda em Tóquio, durante sua residência artística no Tokyo Wonder Site, um centro de arte contemporânea que sempre apoia pesquisas super interessantes.

Dudu estava trabalhando no projeto “Estudo sobre o Silêncio“, que envolve o conceito do kanji 間 (lê-se ma, aida ou kan, mas, pra simplificar, vamos chamá-lo de ma). Em suas aplicações mais amplas, este ideograma representa o intervalo ou espaço entre dois momentos, dois objetos ou dois acontecimentos. Num uso corriqueiro, por exemplo, podemos falar que um filme dura 2時間 (ni ji kan), ou seja, um intervalo de 2 horas. É o intervalo de tempo entre o começo e o fim. No trabalho do Dudu, o kanji é explorado pelo viés do som, do silêncio e do tempo. Seria a reminiscência de som logo antes do silêncio, pra explicar de um jeito bastante simplificado.

Mal sabia que o ma cruzaria meu caminho novamente, desta vez na França. No final do ano passado, numa temporada em Montpellier, pude assistir ao documentário francês “Espaces Intercalaires”, sobre o qual cheguei a comentar neste post sobre arquitetura. Inspirado pelo mesmo kanji, o cineasta Damien Faure foca em projetos arquitetônicos japoneses desenhados para aqueles espaços mínimos que acabam sobrando entre dois prédios. São terrenos com, por exemplo, 2 metros de largura e outros poucos de profundidade, que acabam abrigando uma construção genial, aquelas que os japoneses fazem tão bem. São os espaços entre duas referências concretas, em mais uma aplicação do kanji.

Para chegar onde quero, preciso contar uma terceira e última história. O Antonio, um amigo que faz mestrado em moda, me disse uma vez que existia um conceito japonês que explicava o espaço entre o tecido da roupa e o corpo. E, durante as minhas investigações, não é que descobri que ele também estava falando do 間 – ma?

Com isso na cabeça, durante essa segunda temporada que passei no Japão, pude perceber que isso fazia muito sentido. Esse é o conceito básico da moda no Japão: existe um espaço entre a pele e a roupa. Os tecidos caem de forma mais folgada, sem prender e sem grudar.

Looks da marca japonesa Niko And (instagram: @nikoand_official)

Looks da marca japonesa Niko And (instagram: @nikoand_official)

Eu, fruto dessa genética 100% oriental, não fui agraciada nem com altura nem com muitas curvas. Usar roupas largonas, maxi tee, calças boyfriend, NEM PENSAR. Acho lindo – nas outras. Mas, vendo as japonesas (baixinhas e mignons, como eu) e o jeito que elas se vestem, pude apreciar muito mais esse estilo. Sem exibir a forma do corpo, acho que se tornam mais elegantes.

Deixei de lado também aquela ideia de que se for usar roupa larga – que teoricamente achata o corpo, tem que colocar um saltão. Via mulheres, até mais baixas que eu, com aqueles cardigãs compridões, usando um tênis. E absolutamente estilosas.

Fora a questão do conforto que a roupa soltinha te propõe. Quem aí nunca ficou com aquelas marcas de costura nas pernas depois de tirar uma calça skinny?

Isso me fez parar pra pensar na forma como me visto e em como o ambiente em que estamos acaba criando certas noções e preconceitos. Estes, felizmente, estão sempre na iminência de serem derrubados.

E essa sou eu, de camisa soltinha, shorts soltinho, sem nada me apertando. Ah! E sem salto, pra poder bater perna por Tóquio sem ter que me preocupar com dor nos pés

E essa sou eu, “ajaponesando” meu estilo: de camisa soltinha, shorts folgado, sem nada me apertando. Ah! E sem salto, pra poder bater perna por Tóquio sem ter que me preocupar com dor nos pés

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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Yayoi Kusama: muito além de bolinhas e pontinhos

Confesso que meu primeiro contato com a obra de Yayoi Kusama foi ok, nada de muito empolgante. Em Naoshima, você encontra essas abóboras gigantes cheias de bolinhas pintadas, onde a galera entra e tira fotos fofas com o rosto pra fora dos buracos (como minha irmã :P).

Abóbora-Yayoi-Kusama-Naoshima

Só quando fui ao Matsumoto Museum of Art, na cidade de Matsumoto (a menos de 200km de Tóquio), onde ela nasceu, é que me dei conta da genialidade de sua obra. Percorrendo os ambientes da exposição permanente que o museu dedica a artista, conheci sua história e entendi o que significava aquela infinidade de bolinhas.

Yayoi Kusama, 84 anos, vive há mais de 30 anos em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, por iniciativa própria. Desde a infância sofre de alucinações e de transtorno obsessivo compulsivo e foi buscar na arte uma forma de lutar contra sua doença e pensamentos suicidas. Reprimida pela sua família de valores tradicionais japoneses, principalmente por sua mãe, que rasgava seus desenhos e dizia que ela tinha que se casar com um homem rico e virar dona-de-casa, foi morar em Nova York no final da década de 50, época em que Andy Warhol estava despontando no mercado de arte.

Diferente do principal expoente da pop art, a artista não teve muito sucesso com os marchands e as galerias. Optou pelas performances em espaços públicos, nas quais se manifestava pelos direitos da mulher e pelos direitos civis. Deixava claro sua oposição aos valores ultraconservadores do Japão do pós-guerra e à guerra do Vietnã.

Yayoi Kusama-Paints-an-Actor

O trabalho de Yayoi Kusama vai além de telas e performances de rua. Em suas instalações fascinantes, o público pode ter uma ideia do que se passa em sua mente. Nos ambientes espelhados, suas famosas bolinhas, frutos de suas obsessões e alucinações, multiplicam-se em milhares e milhares de pontinhos.

Um daqueles pontos é sua vida, uma partícula entre milhões de outras partículas.

Esse vídeo, da Tate, traz mais informações sobre a artista, pra quem se interessar.

A retrospectiva “Yayoi Kusama: Obsessão Infinita” está em cartaz no CCBB do Rio e, em maio do ano que vem, vai para o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde fica até 24 de julho. Essa exposição bateu o recorde de visitantes da história do Malba, em Buenos Aires, destronando, olhem só, Andy Warhol e sua expo “Mr. America”, de 2010.  Fica a dica.

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
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