Empatia, delicadeza e ativismo político na Trienal de Arte de Yokohama 2017

Projeto "Don't Follow the Wind - A Walk in Fukushima", do coletivo Chim↑Pom

Os desavisados devem se surpreender com os botes infláveis pendurados na fachada do Yokohama Museum of Art. Acompanhados de milhares de coletes salva-vidas suspensos nos pilares centrais, os objetos fazem parte da obra que recepciona os visitantes da Yokohama Triennale 2017, que vai até o dia 5 de novembro.

“Safe Passage” & “Reframe”, de Ai Weiwei / Foto: Piti Koshimura

A obra é um alerta do artista chinês Ai Weiwei, que acredita que “a arte é a melhor ponte para fazer as pessoas reconhecerem o valor humano e comunicar de forma profunda e abrangente”. A crise dos refugiados faz parte do escopo desta trienal: “Islands, Constellations & Galapagos” (ilhas, constelações e Galápagos”), fazendo uma alusão aos conceitos de conectividade e isolamento entre pessoas, comunidades e nações.

O tema remete à própria história do Japão, que se manteve fechado por mais de duzentos anos durante o período Edo, até a chegada da frota do comandante Perry em meados do século XIX. Pressionado pelos norte-americanos, o Japão reabriu seus portos e Yokohama foi tomada por um processo de transformação. Até então um pequeno vilarejo, a cidade cresceu rapidamente e se tornou um importante ponto de contato entre a sociedade japonesa e o exterior. Não por acaso, conectividade e isolamento são assuntos particularmente relevantes para a cidade portuária.

Red Brick Warehouse, em Yokohama / Foto: Piti Koshimura

De formas bem variadas, os artistas selecionados para esta edição do evento de arte transitam entre questões relacionadas a movimentos políticos, problemas sociais, interação entre indivíduos e mudanças globais. O sentimento de empatia que Ai Weiwei tenta despertar nos visitantes com os objetos que realmente foram usados por refugiados é o mesmo que o coletivo japonês Chim↑Pom pretende suscitar com o projeto “Don’t Follow the Wind”. Ao colocar “capacetes” inusitados, temos a oportunidade de ver imagens em 360º da zona de exclusão de Fukushima.

Os headsets inusitados do projeto “Don’t Follow the Wind – A Walk in Fukushima” / Foto: Piti Koshimura

Os equipamentos feitos com embalagens, caixas de papelão e outros suportes nada tecnológicos foram criados pelos pais e avó do artista Bontaro Dokuyama, que vivem numa área muito próxima à área de exclusão, mas que é considerada “segura” para viverem. Os materiais usados para os tais dos capacetes foram escolhidos com base nas suas necessidades atuais e na vontade de levar uma vida comum no futuro, sem preocupações ligadas ao nível de contaminação do local.

Outro trabalho da trienal que merece bons minutos de apreciação é do islandês Ragnar Kjartansson, chamado “The Visitors”. Ao passar pelas cortinas escuras que isolam a obra das demais, somos convidados a passear por 9 telões que mostram músicos tentando tocar a mesma canção ouvindo uns aos outros apenas pelo fone de ouvido. Música é uma ferramenta que conecta pessoas – achei lindo e emocionante.

“The Visitors”, trabalho lindo que merece bons minutos de apreciação

Gostei também da instalação do artista japonês Yanagi Yukinori, que ocupa o Yokohama Port Opening Memorial Hall. Num ambiente escuro e meio decadente, em que às vezes precisamos da iluminação de lanternas para nos guiar, percorremos um labirinto formado no subsolo do prédio construído em 1917 para comemorar os 50 anos da abertura dos portos. “Article 9” é uma das obras que vemos no caminho: uma instalação com neons que exibem trechos do artigo da constituição japonesa que renuncia o direito de declarar guerras. Concebida nos anos 90, essa obra parece ser mais relevante do que nunca.

“Article 9”, de Yanagi Yukinori / Foto: Piti Koshimura

Outras obras que me chamaram a atenção:

yt/forty two, de Prabhavathi Meppayil / Foto: Piti Koshimura

Eye see you, de Olafur Eliasson / Foto: Piti Koshimura

Tunnel, de Mark Justiniani / Foto: Piti Koshimura

A trienal de arte ocupa três espaços: o Yokohama Museum of Art, o Yokohama Red Brick Warehouse e o subsolo do Yokohama Port Opening Memorial Hall. Um ônibus gratuito leva os visitantes do museu ao Red Brick Warehouse, mas caminhar entre um ponto e outro também é possível para quem quiser passear pela cidade. Mais informações aqui.

 

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉

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