Todo o meu amor pelo gohan, o arroz japonês

Cresci numa casa onde o gohan era a norma. Mas gostava mesmo era do “arroz temperado”: o arroz soltinho que reina nas mesas da maioria dos brasileiros, mas que em casa só fazia aparições esporádicas – logo, especiais.

E já que a mesa era de brasileiros, jogar o feijão por cima do gohan e comê-lo de garfo e faca num prato raso nunca me causou estranheza. Em casa de nikkeis é assim: tempurá vira acompanhamento de bife, shoyu vira molho de frango empanado, hashis são usados para servir a couve cortada bem fininha.

Apesar de estar presente nas refeições praticamente todos os dias, o gohan sempre ocupou papel de coadjuvante no meu prato. Tanto que quando estive no Japão pela primeira vez, confesso que não entendia o fascínio dos amigos gringos pelo arroz japonês, muito menos aqueles programas de tv em que uma bancada de 5 apresentadores se surpreendia com as diferenças entre os grãos provenientes de Kumamoto e aqueles originários de Hokkaido. “É só arroz”, pensava.

Mas por que será que de uns tempos para cá eu tenho AMADO gohan como nunca? E melhor ainda se for para saboreá-lo num chawan, a tigela apropriada, usando um par de hashi. Hoje acho estranho usar garfo e faca para comer o arroz e prefiro não corromper a unidade dos grãos com o caldinho do feijão. Feijão, agora, só se for com o “arroz temperado” (ou abura gohan, como é chamado em japonês).

Acho que uma das razões para essa mudança foi entender, finalmente, a ligação afetiva que os japoneses têm com arroz. O mestre Hirokazu Koreeda explica isso muito bem em “Depois da Vida“. No filme, depois que morrem, as pessoas têm que escolher uma única memória para levar para o “além-vida” (sim, a premissa é bem linda e dá margem para histórias singelas e tocantes). Uma senhora escolhe a lembrança de um momento da sua infância em que come um onigiri (bolinho de arroz) feito pela sua mãe, logo após a cidade onde mora ter sido atingida pelo Grande Terremoto. Arroz é isso: carinho e afeto, com um toque familiar.

Teishoku, um “pf japonês” no qual o gohan é essencial <3

Hoje em dia, fico muito feliz com uma refeição da qual o gohan faça parte. O teishoku, por exemplo, é uma combinação de porções de comidas bem simples: além do arroz, sempre é servido missoshiro, algum cozido, tsukemono (conservas) e a atração principal, que pode ser um peixe grelhado, tempurá, sashimi, etc. Para mim, teishoku sem gohan não é a mesma coisa. É ele que traz harmonia e equilíbrio à combinação de sabores, tornando-se a base para melhor apreciarmos o prato principal. Coadjuvante nunca mais.

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias 😉
Compartilhe:

Comentários

comments

Filed under Comida, Devaneios

Produtora de conteúdo interessada em cultura e artes, juntei meu fascínio pelo país de origem dos meus avós com a minha paixão por compartilhar histórias para criar o Peach no Japão. Aqui vocês encontrarão devaneios sobre cultura japonesa, histórias de viagem e dicas que não estão nos guias ;)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *